Estudo de caso

Nome(fictício)- Joel
Idade- 10 anos e 8 meses
Situação familiar:Joel é o segundo filho dos quatro filhos de Elisângela Pereira. Possui a irmã mais velha com 13 anos, o irmão mais novo com 9 anos e a irmã caçula com 6 anos.
Mora com a mãe, os irmãos e o padrasto, mas em função dos estudos da mãe, passa muito tempo na casa da avó materna e das tias. O pai é separado da mãe desde a gestação da mesma, mas participa ativamente da vida do filho desde o seu nascimento. Joel gosta muito do pai.
A mãe apenas estuda, faz o curso de magistério em uma escola pública e o padrasto trabalha em uma gráfica, sendo assim possuem uma situação econômica baixa, com dificuldades financeiras. O pai trabalha como montador de móveis.
De acordo com entrevista feita com a mãe, Joel apresentou problemas de saúde desde o momento em que nasceu, pois ficou apenas uma noite com ela, quando foi percebido que ele gemia muito, fazia ruídos estranhos e nada acalmava o bebê que chorava muito. Joel foi levado pelos médicos, que mais tarde comunicaram a família que o menino estava com meningite bacteriana. Ela teve alta e ele ainda ficou 8 dias hospitalizado.
Após esse período foi para casa bem, mas alguns meses depois apresentou convulsões, ela relata que teve que sair correndo com ele para o hospital várias vezes, pois Joel ficava com a boca e as unhas roxas. Era medicado e voltava bem para casa.
A mãe observou algumas dificuldades apresentadas por Joel, como dificuldade para levantar a cabeça, já tinha 5 meses e não conseguia fazer esse movimento, só começou a sentar com 9 meses e não falava nada. Começou a dar seus primeiros passos com 2 anos, quando foi encaminhado ao neurologista. Este pediu um exame( eletroencefalograma), que a mãe disse ter esperado 2 anos na fila para realizar, ou seja, o exame foi feito quando Joel estava com 4 anos. Até essa idade usava fraldas, caminhava com dificuldades e não falava nada, apenas fazia alguns sons.
De acordo com o médico, a mãe relata que foi diagnosticado um retardo mental - atraso no desenvolvimento neuro-psico-motor, a idade cronológica não correspondia com a idade mental.
O que Joel mais gostava de fazer era olhar televisão, ficava muitas horas na frente da mesma.
Quando Joel tinha 5 anos a mãe, acreditando que era surdo, pois não falava, procurou, através de uma pessoa da família que trabalhava no local, uma ajuda em uma escola para surdos em Porto Alegre. Na escola, através de avaliações, foi dito que Joel não era surdo e sugeriram à mãe que procurasse a Escola de Educação Especial Cebolinha em Gravataí.
Na escola Cebolinha, Joel passou por algumas avaliações e foi comunicado à mãe que ele não deveria freqüentar a escola, pois iria atrapalhar as outras crianças e atrasar seu próprio desenvolvimento,já que a escola trabalhava com crianças com necessidades mais graves que a dele.
Então, foi aí que a mãe procurou a Escola M. Nossa Senhora Aparecida e nós conhecemos o Joel. A partir de 2005 começa sua vida escolar aqui na escola...
Continuarei em breve...
Comportamentos observáveis na escola
Joel iniciou em 2005 a Pré-escola. A mãe trouxe o menino ainda com suspeita de que ele era surdo.A professora da turma também trabalhava na Escola EMEES, para surdos e através de suas observações e testes foi constatado por ela que Joel não era surdo, o que confirmamos ao longo desses anos.
Naquele ano Joel iniciou suas atividades de pintura, por exemplo, pintando a folha toda e a mesa também, recortava picando todo o trabalho em muitos pedaços e tinha dificuldade de concentração nessas atividades, mas conseguia ficar muito tempo concentrado nos jogos de encaixe e de construção, que eram suas brincadeiras preferidas, já que preferia brincar sozinho. Seus desenhos estavam na fase da garatuja, sem formas definidas, sendo necessário interrogá-lo sobre o que fazia. Quanto a sua linguagem, falava somente a última sílaba das palavras, dificultando a compreensão e a comunicação com os colegas e com a professora.
A professora sempre comentava que Joel nunca olhava diretamente para ela, sempre olhava para baixo ou para os lados quando ela falava com ele ou ele com ela. Não aprendeu a escrever seu nome, mas conseguia reconhecê-lo e localizá-lo dentro da sala.
Nos dois anos seguintes Joel freqüentou a 1ª série comigo e foi apresentando progressos significativos, conseguia pintar e recortar dentro da folha, começou a reconhecer alguma letras fazendo associação com as figuras correspondentes, mas ainda apresentava dificuldades na classificação, na seriação e no raciocinio lógico. Até a metade do ano de 2007 ele tinha acompanhamento de especialistas como psicóloga, fonoaudióloga e neurologista.Entrei em contato com a psicóloga e com a fonoaudióloga e havia uma divergência entre elas à respeito de autismo. Uma acreditava que Joel apresentava caracteristicas de autismo e a outra não acreditava nessa hipótese.
No ano de 2008, ele continuava na mesma série, agora como 2º ano do ensino de 9 anos e estava com outra professora. Segundo a mãe, desde a metade do ano anterior não houve mais acompanhamento dos especialistas devido à dificuldades financeiras, ela não levou mais nas consultas.
Atualmente Joel continua no 2º ano e eu sou novamente sua professora.
Os comportamentos observáveis na escola, em relação à Joel são:
Relacionamentos:
Relaciona-se bem com todos na escola, mas continua preferindo brincar sozinho e ainda não olha diretamente para as pessoas. Quando falo com ele sobre alguma atitude errada, como jogar pedras nos outros, ele muda rapidamente de assunto, fazendo que não ouve. Fala da comiseta, mostra o sapato ou mexe na pasta. É uma criança muito afetuosa e demonstra uma relação afetiva e de confiança com a professora.
Questões de aprendizagem:
Está melhorando bastante a coordenação motora, pinta obedecendo melhor os limites, recorta obedecendo melhor os limites, mas apresenta dificuldades na modelagem de figuras.
É uma criança que está ainda na fase do egocentrismo, tudo está centrado nele mesmo. Senta em grupo com alguns colegas, mas não interage nas atividades em grupo, por exemplo: uma dramatização, as crianças se reúnem para ensaiar e organizar o trabalho, ele participa do grupo, mas não apresenta interesse em ouvir e tomar decisões com o grupo, na hora de apresentar faz do seu jeito, independente do que o grupo combinou.
Não consegue realizar a cópia do quadro, ou seja, não reproduz o que está no quadro,mas consegue copiar quando a professora escreve a palavra, coloca as linhas embaixo e pede que ele olhe e copie. Quando copia do quadro, escreve várias vezes a letra A ou faz riscos, questiono se está igual no quadro, ele diz que sim. Vou tentando desenvolver seu pensamento através de questionamentos e reflexões. Quer realizar todas as atividades rapidamente e muitas vezes não espera auxilio, realizando do seu jeito.
Tem dificuldade de memória, em relação à escrita, hoje sabe algumas vogais, amanhã não reconhece mais pelo nome, mas em relação aos objetos da sala, aos colegas e a professora, qualquer mudança é observada por ele. Está reconhecendo quase todo o alfabeto através da associação entre a letra e a figura.Ás vezes dito as letras e já escreve sozinho, por exemplo, digo porco, p de pato, o de ovo, r de rato... ele nem precisa mais olhar no alfabeto, já faz a associação sozinho.
Demonstra alterações positivas ao nível da articulação das palavras. Consegue compreender mensagens verbais, mas em certos momentos apresenta dificuldade em expressar mensagens verbais, a ponto dos colegas e a professora não entenderem algumas palavras, dificultando a comunicação, porém apresenta grandes progressos em relação ao ano anterior.
Apresenta grande dificuldade de concentração da atenção,quando a professora está explicando alguma coisa relacionada ao processo de leitura e escrita, como nome das letras ou sons das mesmas, ele não ouve, fica olhando livros, figuras ou com o pensamento distante. Gosta de ouvir histórias.
Conta até 5 automaticamente, mas não relaciona a quantidade com o numeral correspondente, reconhece as cores e está conseguindo apresentar maior concentração nas atividades físicas desenvolvidas pela professora de educação física.
Tem muita ansiedade na hora do lanche, quer sempre ser o primeiro a chegar e come várias vezes, sendo que a mãe pediu que deixasse ele repetir apenas uma vez, pois poderá fazer mal comer demais, já que ele almoça antes de vir para escola.
Tem dificuldade em lidar com a frustração, pois não controla suas emoções, ou seja, quando contrariado chora e fica bravo.
Está repetindo a série pela quarta vez.
Movimentos da escola para a inclusão:
A escola está, lentamente, discutindo a questão da inclusão, com os professores que trabalham com esses alunos.É necessário que a inclusão seja discutida por todos, já que todos estamos aprendendo no dia-a-dia.Discutimos a questão das adaptações curriculares, ou seja, trabalhos realizados com objetivos diferenciados, de acordo com as potencialidades de cada criança. A avaliação é um tema que estamos estudando no momento e ainda temos muitas dúvidas e poucas certezas. O único serviço de apoio que temos é o Laboratório de Aprendizagem, que iniciará suas funções na semana que vem e quanto a acessibilidade a escola está adaptando-se aos poucos, como a biblioteca que era no segundo piso e passou para o primeiro em função do acesso, mas ainda não possui adaptações necessárias a todas as necessidades educacionais especiais.
Movimentos para inclusão do aluno:
Joel é tratado na turma como qualquer uma das outras crianças, recebendo uma atenção individualizada, assim como os outros e sendo repreendido quando necessário, assim como todos os outros.
Realizo as mesmas atividades com todos, porém com ele e com os outros dois alunos que também possuem retardo mental, os objetivos de cada trabalho podem ser diferenciados ou não dependendo da atividade. Por exemplo, trabalhamos uma poesia, enquanto todos devem ler e interpretar de forma escrita, com eles, eu faço a leitura e eles a interpretação oral e escrita através de desenhos, letra inicial...
Participam dos jogos em grupo, das apresentações aos pais e para outras turmas, levam recados da professora para outros setores, enfim de todas as atividades e percebo que eles se sentem integrados ao grupo e felizes.
Envolvimento da família:
A mãe de Joel é muito presente, não vinha à escola diariamente devido aos seus estudos, mas atualmente tem vindo todos os dias. Valoriza as aprendizagens do filho e está sempre receptiva para colaborar com a escola com aquilo que for solicitado. No mês passado solicitei que ela voltasse a procurar um especialista para sabermos se há necessidade desse acompanhamento ou não, ela já marcou a consulta e também tem levado Joel, semanalmente, em outra escola onde ele tem atendimento na sala multifuncional.
É importante registrar que há uma monitora trabalhando comigo, iniciou faz pouco tempo, mas já possui uma relação afetiva com as crianças e trabalha de acordo com minhas orientações e nossas reflexões sobre o desenvolvimento de cada atividade, seu auxilio tem sido muito importante nesse processo de inclusão.
UNIDADE 7
A questão da avaliação tem sido a questão principal em nossas reuniões pedagógicas na escola.
A avaliação é um tema que gera muitas divergências entre os professores, pois alguns ainda consideram a avaliação como forma de "medir" o conhecimento do aluno e que deve ser realizada através de testes, provas e trabalhos enquanto outros possuem uma opinião diferente, considerando a avaliação um processo contínuo, que não acontece no final de cada trimestre, mas durante todo o processo de aprendizagem e que seu objetivo principal não é "medir", mas é um meio de auxiliar o professor a rever sua prática pedagógica em função de reelaborar sua proposta de trabalho.
Quanto à Joel, sua avaliação é feita através de parecer descritivo, onde procuro especificar seu desenvolvimento afetivo, social e cognitivo, descrevendo seus avanços,suas dificuldades e salientando suas potencialidades, mas a escola não tem um parecer específico para necessidades educacionais especiais.
Conclusão do dossiê
Escrever esse dossiê sobre Joel foi prazeroso para mim, pois já convivo com essa criança há quatro anos e venho acompanhando o desenvolvimento de suas potencialidades.
O que aconteceu de novo e importante para mim nesse processo foi o conhecimento teorico, as leituras que foram feitas, os filmes assistidos, os debates nas aulas presenciais e a relação de tudo isso com a prática, o conhecimento da legislação, das instituições especializadas do município, o entendimento de que a inclusão não deve ser penosa, sofrida, mas um processo que está iniciando sua caminhada, que estamos todos aprendendo através de nossa prática e principaçmente de nossas reflexões e reconstruções de conceitos.
Há muitas dúvidas e questionamentos ainda sobre a inclusão, mas compreendi a necessidade de estar aberta a essa realidade e não me omitir por medo, comodismo ou pelo fato de não estar preparada para a inclusão.
Também compreendi que não é o aluno que deve adaptar-se à escola, mas a escola que deve adaptar-se à diversidade, aos alunos e que os alunos com necessidades educacionais especiais não são alunos de uma determinada professora, mas alunos de toda a escola.
Enfim, a parceria da escola com os pais, com a comunidade em geral e com os especialistas é uma necessidade fundamental para que aconteça a verdadeira inclusão e muito além de mudanças fisicas na escola é necessário a mudança na maneira de pensar de muitos educadores.
"Para entender é preciso esquecer quase tudo o que sabemos.A sabedoria precisa de esquecimento.Esquecer, é livrar-se dos jeitos de ser que se sedimentam em nós, e que nos levam a crer que as coisas têm de ser do jeito como são." Rubem Alves.
Comments (2)
fernanda.pead@... said
at 7:42 pm on Jun 5, 2009
Boa noite, Ligia!
Gostei do modo como apresentaste a identificação de seu caso. Qual a especialidade do médico que o avaliou e diagnosticou retardo mental? Tens acesso a esta informação? Que avaliações foram realizadas na Escola Cebolinha? Atualmente, ele tem algum acompanhamento de especialista?
Aguardo a sequência de seu dossiê com as informações sobre sua vida escolar.
Abraço,
Fernanda
fernanda.pead@... said
at 9:11 pm on Jul 12, 2009
Olá Ligia!
Você apresenta excelentes reflexões em seu dossiê. Seu Estudo de Caso denota o envolvimento com a interdisciplina ao longo do semestre. Sua reflexão final retrata sua imersão na temática da inclusão, na qual você se coloca como agente deste processo. As palavras de Rubem Alves tocam em um ponto essencial para o trabalho com educação inclusiva, livrar-se de idéias pré-concebidas e considerar as incansáveis possibilidades de mudança e de desenvolvimento do ser humano. Parabéns pelo seu trabalho!
Um abraço,
Fernanda
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