NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS

“É preciso que tenhamos o direito de sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza e o direito de sermos iguais quando a diferença nos inferioriza”. (MANTOAN, 2003, P. 34)
Relato de minha pratica com alunos com necessidades educacionais especiais
Até o ano de 2004, desde que iniciei minhas atividades profissionais em 1985, não tinha
trabalhado com crianças com necessidades educacionais especiais. No ano de 2005 foi minha primeira experiência com uma criança que apresentava uma deficiência mental chamada de atraso no desenvolvimento neuro-psico-motor. Quando fui comunicada que essa criança seria meu aluno, fiquei bastante ansiosa e cheia de dúvidas, mas aceitei o desafio, pois sempre acreditei que todos têm direito à educação. Essa criança falava poucas palavras e as que falava eram pela metade, não olhava nos olhos de quem falava com ele, fazia movimentos repetitivos, não tinha coordenação motora, pintava o desenho na folha e a mesa junto, não tinha limites, quando tinha que recortar picava a folha toda e não aceitava realizar atividades diferenciadas, queria fazer a mesma atividade das outras crianças.
Eu fazia atividades diferenciadas em certos momentos e as mesmas atividades da turma em outros, mas estava muito frustrada, meu sentimento era de impotência. Conversei com a família e descobri que ele já estava em tratamento com uma psicóloga e uma fonoaudióloga, já tinha feito consultas com neurologistas, ou seja, a parte clinica estava sendo tratada. Procurei conhecer esses profissionais e tive um incentivo para continuar meu trabalho. Conversando com a equipe da Educação especial da Secretaria de Educação da época, ouvi delas que não existiam receitas prontas e que eu continuasse meu trabalho com aquilo que eu achasse que seria importante trabalhar com meu aluno. Fiquei ainda mais frustrada e ansiosa, mas continuei o trabalho e o aluno obteve alguns progressos significativos naquele ano. Hoje, com mais experiência, entendo melhor o que significava não existem receitas prontas, pois cada caso é um caso e tem suas peculiaridades, necessidades e potencialidades.A educação de pessoas com necessidades educacionais especiais é um desafio que deve ser enfrentado por todos aqueles que acreditam na possibilidade do desenvolvimento social, afetivo, motor e cognitivo dessas crianças.
Continuo trabalhando com crianças com necessidades especiais, inclusive esse mesmo aluno que relatei ter sido minha primeira experiência está novamente comigo esse ano, estou sempre procurando auxílio para essas crianças e há poucos dias conseguimos, além da sala de aula, um atendimento especializado para eles no turno inverso à aula, com uma professora especialista em deficiência mental. Espero que possamos trabalhar de forma cooperativa, fazendo com que a inclusão ocorra de fato.
UNIDADE 2
Realidade da escola Nossa Senhora Aparecida
Trabalho na escola de E. F. Nossa Senhora Aparecida (sede no nosso Pólo).Estou na escola há 23 anos, atualmente trabalho com duas turmas de 2º ano.
A escola possui 730 alunos, da pré-escola até a 8ª série. Trabalham na escola 48 professores, 7 funcionários e a equipe diretiva composta pela diretora, duas vice- diretoras (uma em cada turno), duas orientadoras educacionais e duas supervisoras.
Conversei com as orientadoras e de acordo com seus registros freqüentam a escola 5 alunos com necessidades educacionais especiais e outros 6 alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem, comportamento agressivo, dificuldade de concentração, falta de interesse, usam medicação, mas existem dúvidas sobre serem ou não necessidades educacionais especiais. De acordo com a Lei, Resolução CNE/CEB nº 2, de 11 de fevereiro de 2001, Art. 6º a escola está realizando avaliação desses alunos no processo de ensino e aprendizagem, contando, para tal, com:
I – a experiência de seu corpo docente, seus diretores, coordenadores, orientadores e supervisores educacionais;
II – o setor responsável pela educação especial do respectivo sistema;
III- a colaboração da família e a cooperação dos serviços de Saúde, Assistência Social....
Os alunos com necessidades educacionais especiais são 3 do 2º ano: Marcelo, Bruno e Samuel (os três meus alunos), 1 da 5ª série: Gabriel e 1 da 6ª série: Mikaela.
O Marcelo tem 14 anos, é o primeiro ano dele nessa escola. Possui deficiência mental moderada. O Samuel tem 11 anos, está na escola há cinco anos e possui deficiência mental diagnosticada como atraso no DNPM. O Bruno tem 10 anos, está na escola há quatro anos e possui deficiência mental moderada. O Gabriel tem 13 anos, possui surdez (75% de perda nos dois ouvidos) e usa aparelho auditivo. A Mikaela tem 11 anos, está na escola há 6 anos, possui Síndrome de Silver-Russel (deficiência no crescimento, baixa estatura e baixo peso).
Em relação aos três alunos que estão comigo, conversei com as mães do Bruno e do Samuel. Com a mãe do Marcelo ainda não conversei, pois compareceu apenas uma vez na escola e estava alcoolizada, motivo pelo qual não fui chamada pela Orientação Escolar nesse dia.
O Bruno faz tratamento com psicólogo, neurologista e fonoaudióloga. É uma criança totalmente organizada, tanto em casa quanto na sala de aula, mantém a sala em ordem por conta própria, possui uma ótima coordenação, escreve tudo (repetindo), gosta muito de animais, é possível agora entender quase tudo o que ele fala, mas tem dificuldade de memorização, não reconhece as cores, os números e nem as letras. Exige bastante a minha atenção, quer fazer as atividades e pede a minha ajuda.
O Samuel não faz tratamento agora, mas anteriormente fazia com fonoaudióloga, neurologista e psicóloga, a mãe parou por falta de recursos para leva-lo. Agora é possível entender muitas palavras que ele fala, mas não fala uma frase inteira, hoje consegue pintar dentro dos limites, pois antes pintava a folha e a mesa junto, dificilmente olha nos olhos das pessoas, não consegue reproduzir as atividades do quadro, apenas faz a letra A ou riscos, quando questionado de está igual do quadro diz que sim, escreve seu nome olhando no crachá e sem olhar escreve as letras fora de ordem, mas realiza todas as atividades propostas do seu jeito. Quando faz algo errado e eu chamo sua atenção, muda o assunto e fala do tênis, abre a pasta e mostra o caderno, finge não estar ouvindo...
O Marcelo procura fazer todas as atividades, mas também não consegue memorizar, hoje parece ter entendido, amanhã não lembra mais. Ainda desenha fazendo bonecos de palitos, sem olhos, com as pernas direto na cabeça. Demonstra interesse em aprender e exige muito a minha atenção, pede ajuda para realizar as atividades em todos os momentos.
Quanto aos outros dois alunos, conversei com alguns professores que disseram que o Gabriel perturba muito na sala, não se concentra, não compreende o que lê, apresenta dificuldade de raciocínio lógico e não assume seus atos. Perguntei se eles falam devagar e sempre de frente para ele, disseram que sim, que ele faz leitura labial, apenas uma professora disse não ser necessário, pois ele ouve através do aparelho. Sobre a Mikaela, disseram ser uma boa aluna na sala de aula, sem problemas de aprendizagem, apenas que parece um “cristalzinho que pode se quebrar”.
Eu e a equipe diretiva estivemos na Secretaria de Educação, no setor de necessidades educacionais especiais e relatamos esses casos. O Marcelo e o Samuel foram encaminhados para a sala Multifuncional, o Bruno não foi pois não tem laudo médico, necessário para esse encaminhamento (pedimos à mãe que providencie através dos médicos que tratam dele). O Gabriel já freqüentava a sala Multifuncional na escola Santa Rita e terá continuidade com a professora especialista em deficiência auditiva, será no turno inverso.
A Mikaela faz tratamento no Hospital de Clinicas com pneumologista, cardiologista, psicóloga, neurologista, endocrinologista e geneticista.
Estive na sala Multifuncional, fica em uma escola próxima da nossa, conversando com a professora especializada em deficiência mental. Seu trabalho será realizado uma vez por semana, por enquanto no mesmo horário de aula das crianças (até ela organizar seus horários). A professora conta com uma pequena sala, com três computadores e materiais didáticos. Ela trabalhará com as crianças em pequenos grupos e disse que não realizará atividades de reforço escolar, mas atividades específicas de acordo com a deficiência do aluno, será um trabalho de apoio e complemento ao trabalho escolar. Também foi comentado a importância e a necessidade da interação entre o meu trabalho e o dela.
Relacionando todo esse contexto com a teoria e com minha prática observo que os profissionais da educação estão muito divididos sobre a questão da inclusão. Alguns dizem não estar preparados, não é papel da escola comum atender esses alunos, eles atrapalham os outros, pois exigem mais atenção do professor, outros acreditam que todos têm direito à educação e procuram trabalhar com dedicação, boa vontade, carinho, mas não sabem exatamente como agir e ficam bastante ansiosos. As leis são muitas, a Educação Especial está ampliada na lei, com muitas determinações, mas a maioria dos professores e familiares não conhecem essas leis. As Políticas Públicas garantem a educação para todos através do registro legal, mas na prática há ainda muito a se fazer para alcançarmos a verdadeira inclusão, que não acontece apenas com mudanças nas estruturas físicas das escolas, mas na maneira de pensar dos profissionais da educação, que ainda apresentam muita resistência a esse tema.
UNIDADE 3
Serviços especializados do município de Gravataí
O município possui duas escolas de educação especial, que são:
1)Escola Municipal de Educação Especial Cebolinha, que funciona em parceria com a APAE localizada na zona central de Gravataí.
A Escola mantém o Ensino Especializado para Crianças com Necessidades Educativas Especiais na área da Deficiência Mental, associada ou não com outras deficiências.
Possui um total geral de 255 alunos matriculados, estão incluídas neste total, as crianças que vêm sós para atendimentos como; fisioterapia, terapia ocupacional e estimulação precoce.
Freqüentando a sala de aula são 177 alunos. Os outros educandos só freqüentam atendimentos conforme foi citado acima.
A organização curricular é formada por etapas que são as seguintes:
Etapa transitória. (esta Etapa foi criada no ano de 2008, para atender crianças que até então eram atendidos somente na fisioterapia, pois são crianças com deficiências múltiplas, com um comprometimento bastante severo. A escola precisou fazer muitas adaptações para recebê-los, pois precisávamos nos adequar a esta nova realidade e a estes novos educandos. A inclusão também acontece dentro de uma Escola Especial).
Etapa l;
Nível I – II- III.
Etapa II;
Nível I- II- III
Etapa lll
Nesta Etapa lll, ha uma Oficina de Reciclagem e uma Oficina Fábrica de Chocolates.
As outras oficinas de Artes Manuais, Oficina de Cartonagem, atualmente estão desativadas, por falta dos profissionais.
O serviço de apoio pedagógico é composto pela Brinquedoteca, Laboratório de Informática, (SAPE) Sala de Apoio Pedagógico Especializado e Equipe de Ação Educativa.
A Equipe Multidisciplinar é composta pelos seguintes serviços:
*Serviço médico (neurologista e pediatra, com horários bem reduzidos);
*Serviço fisioterápico;
* Serviço de terapia ocupacional;
*Serviço social;
*Serviço fonoaudiológico;
*Serviço psicológico;
*Serviço de estimulação precoce;
*Serviço médico com neurologista.
2)Escola Municipal de Educação Especial para Surdos, que atende 83 alunos com deficiência auditiva nos três turnos, sendo o terceiro vespertino. A Escola localiza-se no centro de Gravataí.
Material fornecido pela de SMED Gravataí:
Atendimento especializado que a rede Municipal dispõe para as crianças e seus familiares.
Os serviços especializados são:
1) Material da SMED Gravataí – Atendimento a rede municipal
Público Alvo: Crianças e adolescentes
Especialidades atendidas: Neurologia, fonoaudióloga e oftalmologia.
a) Neurologia - A escola deve entrar em contato com o serviço social e agendar atendimento informando dados sobre o educando e informar motivo do encaminhamento.
b) Fonoaudióloga: A escola deve encaminhar o aluno para a triagem para o mesmo realizar uma avaliação.
c) Oftalmologia: A escola deverá fazer um teste de acuidade visual e encaminhar a ficha de encaminhamento para o serviço social.
2) CEACAF - Centro de Atenção a Criança, Adolescente e Família.
População Alvo: Crianças, adolescentes e família.
Especialidades atendidas: Psicologia, psiquiatria, psicopedagogia, serviço social, neurologia, hebiatra e terapia de família.
3) CAIS MENTAL
Público Alvo: Adulto
Especialidades atendidas: Psiquiatria, psicologia e assistente social.
4) Conselho Tutelar de Gravataí
Público Alvo: Criança e adolescente em situação de risco vítima de violência, maus tratos e negligência.
5) CEDUGRA – Centro de Educação de Gravataí
Público Alvo: Criança e adolescente
Especialidades: Psicologia e Psicopedagogia
6) CAEPSY – Centro de Atendimento e Estudos em Psicologia
Trabalha com atendimento psicológico de compreensão psicanalítica, oferecendo serviços de psicoterapia individual, grupal, para casal e família.
Psiquiatria – Trabalha com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais, sejam elas de cunho orgânico e funcional.
Psicopedagogia – Tem como foco o trabalho com as dificuldades de aprendizagem, atendimento a crianças e adolescentes.
Fonoaudiólogo – A terapia fonoaudiológico trabalha as dificuldades no desenvolvimento da linguagem, de fala e da voz.
Inclusão de Pessoas com deficiência – O CAEPSY participa de todo o processo de inclusão, desenvolvendo um programa específico de preparação da equipe para receber e conviver com os novos colegas.
Também existem 5 salas multifuncionais, que funcionam em escolas municipais e atendem crianças da própria escola e das escolas próximas. Trabalham com deficiência mental, auditiva e visual.
Em algumas escolas estaduais do município ainda existem as classes especiais.
ESTUDO DE CASO
Comments (2)
fernanda.pead@... said
at 5:43 pm on Apr 20, 2009
Oi Ligia!
O teu relato de experiência demonstra a persistência em encontrar meios de efetivamente contribuir para as aprendizagens do aluno da educação especial e o quanto este caminho é peculiar. No caso relatado, tiveste apoio dos especialistas que atendiam o aluno e da equipe de Educação Especial da Secretaria de Educação para seguir investindo no aluno, o que é muito significativo para que possas ir construindo o melhor caminho de acessar o aluno e auxiliá-lo em suas aprendizagens.
Para dar seguimento ao dossiê, sugiro conferir as orientações da unidade dois. O link do pbwiki pessoal facilita o acesso ao dossiê e a formatação do título do link chama a atenção do leitor. Abraços e bom trabalho!
Fernanda
fernanda.pead@... said
at 11:53 am on May 6, 2009
Olá!!! Boas reflexões no teu texto sobre a realidade da escola apresentada. Fiquei surpresa no decorrer do teu relato que dos cinco alunos com necessidades educativas especiais, três alunos estão na mesma turma e são teus alunos. Pode-se perceber que é sim possível incluir e que isto também depende, como destacaste no teu texto, de mudanças no modo de pensar dos profissionais da educação. Apresentaste claramente os serviços especializados do teu município. Agora é só iniciar o estudo de caso propriamente dito. Já escolheste o aluno?
Grande abraço,
Fernanda
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